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A palavra na narrativa política

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    g-pense
  • 20 de set. de 2022
  • 4 min de leitura

Autora: Taís Ferreira


Criar o mundo é um diagrama entre as coisas e a linguagem. Nele, cada ser interage com outros corpos, como também com as capacidades humanas de ler e compreender a si e ao coletivo. Diferentes artefatos e obras, assim como a capacidade de comunicação que guardam, possibilitam às pessoas a deixar vestígios de uma geração para outra geração, sendo uma forma de conferir e eternizar memórias dentro da mundanidade (ARENDT, 2020). Sobre esse aspecto, podemos relacionar duas vertentes sobre a forma de usar a palavra para construir tais vestígios: trata-se daquelas lançadas no mundo de próprio punho ou que remetem a ser lembrado pela memória que outras pessoas cultivam sobre nós.


E desse modo, o mundo é ocupado e


m seu espaço cultural de memória e história, assim como é alterado e compartilhado por fenômenos do agir humano da potência discursiva das palavras, e daquilo que se entende como experiência. Ocupamos esse lugar através do sensus communis, que significa ter capacidade de comunicar um sentimento. Mas para um mundo afetado pelos processos massivos de alienação do outro, o ato discursivo de comunicar as experiências compartilhadas, torna-se opaco, e a realidade de um fato passa a ser distorcido por uma narrativa. Retomando e remodelando o velho conflito entre a verdade factual e a opinião.

Para aprofundar o valor das palavras, e das narrativas decorrentes da convivência dos humanos no mundo, Hannah Arendt (2014; 2020) resgata o papel de Sócrates (enquanto o primeiro a descobrir o valor potencial dos discursos escritos ou narrados), ressalta o fato de não ter sido Sócrates um mero contador de sua história, mas alguém que, em referência ao seu aluno Platão, organizou uma referência explícita à narrativa da experiência passada, através dos olhos da ‘testemunha’. Ela, guardiã da história, (re)constrói a linguagem de modo a entrelaçar as gerações e suas experiências na correlação de fatos (e éticas) que se atravessam no mundo (e no comum).


O topos desse argumento, o lugar comum, é o universo das narrativas rememoradas, na história, lidas e contadas de modo a entrelaçar gerações permitindo a compreensão. Dessa forma, Arendt (2014; 2020) ao apontar Sócrates como ‘cidadão ideal’, mas também como descobridor ou como porta-voz da constatação de que as pessoas sentem a necessidade de lançar fragmentos no mundo, constata que os fatos permanecem do ponto de vista da verdade factual, ou seja da conjectura das coisas e seus elementos. O que diverge é, pois, a circunstância, assim como cada tempo e ou época lançar o olhar sobre a “aura” (BENJAMIN, 2013), essência, do momento passado. Afinal, como o ator, a plateia, o espectador está em constante movimento, no olhar e lugar de onde parte cada narrador (DUARTE, 2000). Assim,


Em suma, o que importava a Arendt não era o passado enquanto tal, mas a possibilidade de narrar determinadas experiências políticas do passado de modo a transformá-las em cristalizações que revelassem o sentido das manifestações políticas cruciais do presente, encontrando assim correspondências sintomáticas entre passado e presente (DUARTE, 2001, p. 7).


Em contraponto está a discursividade. Trata-se da narrativa do mundo, representada na resistência de revelar e saber, tal revelação através do, que por eles está escrito necessidade de deixar vestígios de si para as próximas gerações e assim manter um dialogo com a intenção de se comunicar de modo atemporal. As ideias resistem durante a história no mundo, por assim dizer, a narrativa escrita:


Pensar desalojar os sujeitos de seus dogmas e regras cristalizadas de comportamento, deslocando-os da da pura lógica epistêmica a de meios e fins baseados em hábitos considerando considerando como dados. É como se a faculdade de pensar capacitasse assim alocando nus diante de uma tábula rasa sem bem ou mal sem certo ou errado e tivesse as condições para reflexão independente na forma de um diálogo consigo mesmo (ASSY, 2019, p. 66).


Fundir a experiência e o hábito reflexão remete à necessidade de consideração da experiência. Uma proximidade para com o fato, pois, uma visão monocular dos preconceitos limita as perspectivas de fala, não considera o lugar do outro(ARENDT, 2020), não permite pensar na pluralidade envolvida no ato, cena, convívio. A identidade do discurso é, então, persuasiva; o discurso escrito é uma performance atemporal à narrativa de onde parte a doxa como lugar dos fenômenos, os quais resistem, por sua vez, a partir da factualidade e dos experiências da pessoas que habitam o mundo.


Do referido senso da memória, os fatos que elegemos e as condições sob as quais emergem aquilo que chamamos de exemplos com os quais julgar, no livro Ética , responsabilidade e juizo em Hannah Arendt, Assy (2019) a ponta em seu estudo sobre responsabilidade, que os exemplos tomados como parâmetro, não envolve preconceito em um sentido comum, que é o ato antecipado de atribuir um juizo de valor, mas envolve um conceito a partir de uma vivência histórica que desenvolva similaridade com momentos presentes. Ou seja, a análise dos fatos passados permitem a conservação do mundo, assim como propicia parâmetros de não repetição de precedentes históricos que degradem a existência do ser humano no mundo.


O exemplo enquanto fundamento do julgar tem por interesse não só a doxa do espaço comum, mas o desenvolvimento de premissas a partir da experiência do olhar para o passado para entender o presente e projetar o futuro. Tal ciclo mostrará a divergência com processo cíclico e progressista que as correntes da filosofia da história tradicional submetem as leituras do mundo.


Deste modo a capacidade de compreensão e de convivência, assim como em outros momentos da história narrada, vem se tornando lugar de conflito. Se a capacidade do discurso permite a cada sujeito a possibilidade de fazer e refazer acordos, é na incapacidade de compreender e é no medo que são paridas as violências. A necessidade de auto afirmar uma posição de controle e o terror da sombra de uma possibilidade de violência ativa o gatilho do distanciamento do sujeito do mundo, o alienando do que significa viver em comunidade.


Logo, o silêncio torna-se um mecanismo não de auto preservação, mas uma limitação imposta por uma via indireta. O medo não é fruto da ação e da manipulação dos meios de violência do estado, mas da autorização narrativa que o discurso pode possibilitar que a violência venha do seu vizinho, o que determina um estado de paranóia.


 
 
 

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