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Araras Vermelhas: a poética da memória de Cida Pedrosa

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    g-pense
  • 9 de mai. de 2023
  • 3 min de leitura

Autora: Clécia Pereira



O que faço com os fragmentos da lembrança é desafiar a circulação da história única como a verdade da história

DINIZ, 2022


Tremer o corpo, reunir lágrimas, confundir os sentidos, provocar. Se essas não são funções da memória, quais outras serão?


Cida Pedrosa, poeta pernambucana, e por que não poeta da memória? Nos apresenta a poética política da outra face. Assim como acentua Débora Diniz “o descortinar da história única”, revela as veias de sangue ocultadas na construção do nosso país. Poderia destacar essa narrativa pela revelação ocultada dos enfrentamentos de algumas das páginas mais tristes que compõe este território.


Brasil em ditadura, regime do silêncio - dos mortos não nomeados, das vidas desavisadas, das mulheres de forças escondidas, da juventude de luta não evidenciada – todas essas perspectivas estão em araras vermelhas, que já no título anuncia e reverenda a natureza, personifica a memória, a força de um coletivo e retrata a construção de uma nação não revelada.


O rio Araguaia testemunhou brutalidades, a arquitetura dos militares, vidas ceifadas, corpos decepados e toda crueldade escancarada pela ditadura brasileira. Contudo, igualmente, testemunhou a esperança, a coragem, a força de um coletivo, o destemor e a bravura ideologizada de liberdade – a resistência. Pelas forças das águas que corta o rio um solo se fez sagrado, se fez manto.


Nesse livro, Cida relata em cinco seções de canto eventos culturais ao redor do mundo, testemunhos únicos, histórias diversas, que se fazem pela poética que só é possível se dar pela memória versada de forma tão particular na estética que perfaz esse longo poema.


No primeiro canto, evoca a natureza, a Amazônia e os donos da terra quando nos devolve um glossário das raízes do povo originário que habitava a floresta - o tupi. Junto a territorialidade estão as marcas do tempo e o aviso que outros povos que ali moraram “estavam presos em sonhos”.


primeiro canto, página 15


No segundo canto, entre as marcas da morte de Joplin e o prêmio Nobel de Neruda, as mulheres ganham a cena, seja pelo resgate da repressão que a atriz Leila Diniz sofreu ao expor seu corpo gestando, seja pela descoberta narrada na memória de infância da poeta de que “mãe também tem segredo”, ou mesmo por trazer a icônica interpretação da Gal Costa cantando Vapor Barato.

segundo canto, página 38


Os sonhos dos guerrilheiros, os atos atrozes da ditadura são revelados no terceiro canto, esse que lembra a marcha floresta a dentro, entre os que matam – o mato, a mata. Expõe fuzil, o pau de arara, o chute, o saco na cabeça, “subjuga os índios e pega camponês”, prende, bate e aterroriza a golpes de crueldade.


terceiro canto, página 63


No quarto, no canto é subversiva a poeta, ainda menina, ao ouvir por traz da porta o medo que sua família tem de um filho ser considerado insubmisso e Sônia, guerrilheira metralhada em uma emboscada. Nessa seção, o poema se desdobra no apontamento na presença do choque elétrico, afogamento, pimentinha, cadeira do dragão e o retrato que se mata sem deixar rastros. Das muitas ordens o destino final era a execução.


quarto canto, página 91


Por fim ao poema, depois de apresentar tantas mortes, papel difícil o do quinto canto, o Cida Pedrosa, o da memória e de cada leitor(a) que se depara com o nome dos armamentos, a fila da violação, as cabeças cortadas para servir de exemplo, o pseudônimo de Chico Buarque, a carta – símbolo da despedida, o arremesso das bolas de gude, o exumo ilegal, o apagamento da guerrilha, o silêncio.


quinto canto, página 134


Uma experiência de sangue, a leitura que revira nosso corpo, que banha o Araguaia, que ferve a história do nosso país e que desfaz a ode ao silenciamento da Guerrilha do Araguaia. O poema da memória de Cida Pedrosa pôs nos guerrilheiros todas as cabeças decepadas. Em nós, põe olhos, ouvidos e o relato de que nada deve ser esquecido. E que a memória tem uma nobre função – ser voz dos massacrados.


Referências


PEDROSA, Cida. Araras vermelhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.


DINIZ, Débora; GEBARA, Ivone. Esperança Feminista. Rio de Janeiro: Rosa dos tempos, 2022.

 
 
 

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