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Memórias de um carnaval sem Bolsonaro

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    g-pense
  • 10 de mar. de 2023
  • 4 min de leitura

Autora: Luísa Vanessa Carneiro da Costa


Foto: Fabio Motta/AE


A ideia de resgatar o sentido político do carnaval coincide com pensar que a sua origem é muito mais antiga que a própria formação do Brasil, considerando que as primeiras festividades carnavalescas eram experienciadas em comemoração ao término de um ano e início de outro, o que remete à Grécia e à Roma antiga. Regadas pelas sensações e sabores das bebidas e vinhos, as referidas festas ganharam um aspecto plural.


Ao longo do tempo, algumas adaptações foram realizadas a essa festividade, sobretudo quando passaram a ser incluídas no calendário religioso, um atravessamento pelo período quaresmal e, com isso, o carnaval passou a ser associado como a festa da carne, do pecado, da promiscuidade, da indecência. O que não podemos esquecer, no entanto, é o valor do carnaval como um espectro artístico, poético, experimentado por meio do entrudo que desembarcou na cidade do Rio de Janeiro, em 1641.


Nesse aspecto, para a difusão de uma cultura política e para a resistência às dinâmicas de diferentes formas de estigmas atribuídos ao carnaval, diferentes lugares do Brasil e do mundo ressignificaram as comemorações e suas tradições, as festas de rua, as manifestações religiosas, fantasias e os diversos fazeres que reafirmam as memórias dos entrudos (festividades experimentadas pelos escravos e que foram proibidas por serem consideradas promíscuas).


O entrudo, praticado por escravos que saíam pelas ruas com corpos e rostos pintados, jogando água de cheiro e farinha nas pessoas que caíam na folia, segundo a Academia Brasileira de Arte (2023, p. 2), foram substituídos pelos “bailes de carnaval, que traziam música como valsa e se assemelhavam muito ao que se tinha em Veneza, com bailes de máscara”.


Com o passar do tempo, surgiram os desfiles e concentrações carnavalescas, blocos, comemorações regionais e diversas outras atividades, até chegarmos ao carnaval que temos hoje, sinônimo de luta, resistência, reconstrução de memórias, garantia de liberdades, igualdade, diversidade, justiça, cultura, religiosidade, dentre outros aspectos.

Após alguns anos pandêmicos e quatro anos de desgoverno bolsonarista - quando houve um sistemático apagamento histórico, epistêmico, cultural, artístico de tradições africanas, também no carnaval - a imagem dos entrudos remete, agora, a outras construções narrativas e comunicações, visibilidades, bem como quanto à denúncia acerca do silenciamento dos corpos, sobretudo negros e LGBTQIAP+. Por isso, é necessário pensar o carnaval não apenas em cinco dias, mas que o período é reconstrução de memórias e deve ser celebrado politicamente.


Afinal resgatamos por meio da ação política, dos agenciamentos e resistências, uma dinâmica ética ligada à produção de subjetividades e práticas de empoderamento de sujeitos políticos coletivos. A arte, o brilho, a representatividade através das performances, das experiências políticas, culturais e de cidadanias acumuladas na verdadeira história do carnaval no Brasil.


É importante lembrar, ainda, que experiências e vivências ligadas às questões das diásporas africanas sempre guardaram relação com o carnaval em diversos aspectos, especialmente, no cotidiano das escolas de samba, que retratam, desde o seu surgimento, alianças aos povos originários.


Apesar de o governo Bolsonaro ter organizado grandes ataques à cultura, com ministérios e políticas epistemicidas e fascistas, invisibilizando artistas durante a pandemia e atacando de forma ferrenha a cultura popular, as escolas de samba sempre mantiveram um papel de resistência contra a opressão vivida no país. Um exemplo disso ocorreu com a Estação Primeira de Mangueira, Escola campeã do carnaval 2019, que exaltou, em seu enredo, personagens que fazem parte da história (não contada) do Brasil, que não são mencionados nos livros de História.


Entre algumas das pessoas homenageadas pela Estação Primeira de Mangueira, em 2019, podemos mencionar Leci Brandão, cantora, compositora e política, primeira mulher a integrar a ala de compositores/as da Mangueira e, até hoje, uma das maiores defensoras e ativistas do samba. Ainda, Dandara, mulher de Zumbi dos Palmares, integrante da maior comunidade de escravos fugidos do país, em Alagoas, que, ao ser capturada, em 1694, jogou-se de uma pedreira para não voltar à condição de escrava.


Além de Leci Brandão, Dandara dos Palmares e outras pessoas que fazem parte da história não contada do Brasil, podemos sinalizar que a escola homenageou Marielle Franco, nascida no Rio de Janeiro, na Zona Norte, na Favela da Maré, que se elegeu vereadora pelo PSOL, em 2016. Combativa, defendia as causas das mulheres, das pessoas negras, dos direitos humanos e das moradoras de comunidades periféricas Marielle foi assassinada em 14 de março de 2018, gerando dúvidas, até hoje, sobre quem pôs fim não apenas à sua vida, mas também ao seu legado e luta.


Foto: Marcos Serra/G1


Outro exemplo ocorreu em 2022, com a Grande Rio, campeã do carnaval do Rio de Janeiro, que homenageou Exu, orixá da comunicação que busca por combater o racismo religioso contra cultos de matriz africana. É ele quem abre os caminhos, quem traz prosperidade e fartura para as nossas casas.


Foto: Folha de São Paulo/2022


Afinal, é no carnaval, a poesia (re)nasce, a arte floresce e, com a batida da bateria, a resistência se cria!


Referências


ACADEMIA BRASILEIRA DE ARTE. O carnaval e sua relação próxima com a arte. Disponível em: https://abra.com.br/artigos/o-carnaval-e-sua-relacao-proxima-com-a-arte/. Acesso em: 28 fev. 2023.


MENDONÇA, Alba Valéria. Conheça os heróis citados no samba e no enredo da Mangueira no carnaval de 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2019/noticia/2019/03/08/conheca-os-herois-citados-no-samba-e-no-enredo-da-mangueira-no-carnaval-de-2019.ghtml. Acesso em: 28 fev. 2023.


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA. A origem do carnaval. Disponível em: https://www1.ufrb.edu.br/bibliotecacecult/noticias/228-a-origem-do. Acesso em: 28 fev. 2023.

 
 
 

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