Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...
- g-pense
- 24 de out. de 2022
- 4 min de leitura
Autor: André Cavalcante Falabella
O que explica Bolsonaro ter tido quase dois milhões de votos a mais que na eleição presidencial de 2018? Como justificar cinquenta e um milhões, setenta e dois mil, trezentos e quarenta e cinco pessoas que confiaram nele mesmo depois das quase seiscentas e noventa mil mortes por COVID, boa parte delas evitáveis? Quais motivos fazem tanta gente acreditar no atual Presidente da República mesmo depois dos desmontes na educação, das ameaças às instituições democráticas, do aumento nos preços dos alimentos ou dos escândalos de corrupção no MEC? Que razão têm 30% dos nordestinos para apoiarem o homem que associou nosso voto ao analfabetismo? Esses questionamentos pairaram no imaginário de uma parte da população depois de encerrado o primeiro turno das eleições presidenciais de 2022 e esse texto humildemente tentará trazer um ponto de vista para essas angústias.
Um fato curioso entre seus eleitores é que quando são questionados quais os motivos que os levaram a votar em seu candidato, geralmente dão respostas vazias, mas com muita certeza: “ele é patriota”, “ele combate a corrupção” e “ele defende a família”, são algumas das frases mais comuns. No entanto, quando se contra-argumenta mencionando os cinquenta e um imóveis comprados com dinheiro vivo ou a autorização para a manutenção do orçamento secreto, ou ainda que seu candidato outrora defendeu o aborto como decisão do casal, as respostas ficam cada vez mais evasivas e, em certa medida, agressivas. Há ainda quem diga que ‘o mito’ combate o comunismo que obviamente está na iminência de ser instalado no Brasil, caso Lula seja reeleito (leia-se com ironia). Os religiosos mais fundamentalistas, por sua vez, são movidos por pautas como: não legalização do aborto, não legalização das drogas, combate à ideologia de gênero, entre outras ideias que incluem algumas fakenews grotescas, tais quais: supostos fechamento das igrejas ou erotização de crianças nas escolas. Todavia, me parece que nada disso é suficientemente grande para dar-lhe tamanha quantidade de eleitores.

Conversando com um grande amigo sobre os chamados ‘votos envergonhados’ que claramente recaíram sobre o atual Presidente da República no primeiro turno das eleições deste ano, ele me disse uma frase que achei de grande sensatez: “o bolsonarismo nunca vai morrer, porque ele está dentro de cada um de nós”. Me chamou a atenção como essa frase é verdadeira e faz total sentido, pois suas ideias estão presentes quando desrespeitamos a opinião feminina ou quando falamos de forma desrespeitosa com uma mulher; elas vivem quando nos calamos diante de uma situação de violência racial ou de LGBTQIAP+fobia; se revigoram na medida em que silenciamos diante de uma injustiça social; e se fortalecem quando na roda de amigos propagamos piadas machistas, homofóbicas ou racistas. Nessas circunstâncias fáticas, Bolsonaro é unicamente a personificação de todos esses pensamentos retrógrados e violentos que estão entranhados na nossa cultura, na nossa criação e no nosso modo de pensar. Contudo, no meu modo de ver, há uma diferença brutal entre quem não apoia e quem apoia o falso messias. Estes renderam-se completamente aos seus impulsos mais sombrios, aos pensamentos mais arcaicos e às atitudes mais antiquadas. Aqueles reconhecem que o que está posto na sociedade tradicional é, para dizer o mínimo, ultrapassado, que novas subjetividades surgiram e que as pessoas precisam ser respeitadas nas suas diferenças. E a partir disso, tentam ser melhores. Portanto, todos aqueles motivos eleitorais que foram listados no parágrafo anterior nada mais são do que escudo para a proteção dos seus instintos mais reacionários e que, por sua vez, são simbolizados na figura do Presidente, que não tem lá muito filtro.
Nos Estados Unidos, grande parte dos eleitores pobres sulistas que votavam nos democratas cederam ao partido republicano que radicalizou o discurso contrário ao aborto e ao casamento homossexual. Essa parte da população deixou, de repente, de votar no partido que prometia melhorar sua situação econômica para votar naquele que centrava suas pautas nos costumes, daí um dos motivos para a eleição de Donald Trump, cujo voto envergonhado também o beneficiou. Em 2018, aconteceu algo semelhante com Bolsonaro. Ele sustentou sua campanha no lema ‘Deus, Pátria, Família e Liberdade’, sem apresentar de que forma poderia melhorar a vida real dos brasileiros e, mesmo assim, conseguiu vencer as eleições, não sendo muito questionado por seus apoiadores de como trataria o desemprego ou a economia, por exemplo. Em 2022, apesar de ter terminado atrás no primeiro turno das eleições, o Presidente obteve 43,20% dos votos válidos, elegeu noventa e nove deputados federais, oito senadores, além dos diversos aliados de outros partidos, e, talvez, só não tenha vencido as eleições em primeiro turno porque enfrentou alguém que possui uma capacidade de mobilização tão grande quanto a dele. O bolsonarismo está mais vivo do que nunca.
Mas por que é importante derrotá-lo nas urnas se suas ‘ideias’ permanecerão vivas e o país permanecerá dividido? A cada minuto que Bolsonaro passa no poder, aquilo que ele representa é legitimado não apenas na sociedade, mas dentro do Estado Brasileiro. O racismo, a LGBTQIAP+fobia e casos de violência doméstica serão tratados com menor importância do que deveriam; a polícia, em seu íntimo, se sentirá um pouco mais à vontade para matar pretos e pobres em operações nas favelas; as armas certamente terão um maior grau de letalidade; jornalistas, sobretudo mulheres, terão suas opiniões menosprezadas com maior frequência; e as instituições democráticas viverão constantemente na corda bamba. Tirá-lo do cargo mais importante da república ao menos deslegitimará discursos de ódio do tipo: “vamos fuzilar a petralhada”. Narrativas estas que terminaram tendo resultados desastrosos no período eleitoral. Por ora, teremos que aceitar que o bolsonarismo não será extinto de imediato, mas vencer Bolsonaro nas urnas, sem dúvida, é o primeiro passo para derrotá-lo.

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