Ela, Linn da Quebrada, e a visibilidade travesti
- g-pense
- 8 de mar. de 2022
- 4 min de leitura
Luís Massilon
A presença da artista Linn da Quebrada no Big Brother Brasil agencia[¹], desde a sua entrada, quando a imagem de sua camisa retrata “Anastácia livre” (mulher negra escravizada, condenada à mordaça por lutar contra a violência sexual do homem branco), múltiplos processos de resistência. Lina demonstra a importância de não silenciar e a luta travesti pela existência:
Quando alguém me pergunta, o que você faz da vida? Não ser só o meu trabalho, eu não sou só cantora, não sou só atriz, tenho uma cachorra, tenho uma mãe, sou filha da D. Lilian, de 68 anos, alagoana, tô aqui também por ela, pra poder dar, garantir de alguma forma uma velhice mais confortável pra minha mãe, pra poder garantir uma casa, um lugar que a gente tenha que ficar, e...sou chorona, sou canceriana com ascendente em aquário, sou determinada, sou corajosa, mas sou muito medrosa, sou complexa, sou contraditória, trabalho com o erro, com a falha, com o fracasso, eu sou o fracasso, eu fracassei, sou o fracasso de tudo aquilo que esperavam que eu fosse, não sou homem, não sou mulher, sou travesti, e essa sou eu e por isso estou aqui!
Lina provoca o debate e evidencia narrativas que cogitam a abertura de novas possibilidades, instrumentos de criação do novo, deslocamentos para a experimentação e a transformação de uma linguagem outra do cotidiano. Em sua percepção, o “fracasso” torna-se o sucesso pela construção de sua subjetividade, visível quando ela canta no programa a canção “Serei A” que tem a participação da cantora Lineker.
Lina pedagogiza e ultrapassa os limites da insensatez, talvez até da ignorância, a partir da conceituação e uso da construção linguística em torno da “Travesti”. Sua experiência questiona o caráter pejorativo de palavras e discursos, relaciona a dimensão feminina das experiências travestis. Quebra com pressupostos, normas e crenças instituídos desde a heteronormatividade.
O termo travesti é qualificado como saber dissidente, enquanto nominação, apesar de ser rodeado por estigmas e significados colonialistas, se constitui como marca discursiva que rompe com a condição de abjeção dos referidos corpos. Amara Moira (2017) questiona se faz diferença a travesti dizer-se homem ou mulher diante de tantas violências a que está sujeita. A autora afirma: “não importa o que ela diga, nada será tão eloquente quanto o seu corpo em transmitir a mensagem do que ela é, do que ela não pode deixar de ser” (2017, p. 370) .
Butler (2015) situa que a condição de reconhecimento remete a normas gerais que preparam e modelam os sujeitos para o reconhecimento, e por isso a condição de ser reconhecido é anterior ao reconhecimento. E a condição de ser reconhecido se dá por intermédio de um enquadramento e não precisamente de uma produção. Lina, assim, demonstra, por meio da sensibilidade-transgressora que lhe é própria, as violências que a corpa travesti sofre no Brasil e que impedem o seu reconhecimento. O pronome ‘ELA’, tatuado na testa explica é denotativo deste argumento:
“Eu fiz essa tatuagem na verdade por causa da minha mãe, porque quando, no começo da minha transição, ou em parte da minha transição a minha mãe é... ainda errava e me tratava no pronome masculino, daí eu falei, mãe, ó, eu vou tatuar ELA aqui na minha testa que é pra ver se a senhora não erra... e acho que assim também é uma indicação pra todas as outras pessoas, então, ficou na dúvida, lê e daí vocês lembram que eu quero ser tratada nos pronomes femininos”.
A atriz enfatiza “eu quero viver pra sentir o Brasil torcendo por alguém como eu”, o que nos faz entender a instauração de um linguagem transformadora, de um exercício reflexivo e crítico sobre a condição travesti, oferecendo, com base em sua persona, referências significativas para aquelas pessoas que não se identificam com o padrão hegemônico. A presença de Lina no BBB simboliza processos e potenciais mudanças da mentalidade e da cultura, quebras promovidas pela QUEBRADA.
ELA expressa que o amor é também uma construção social, uma invenção, pois, até meados do século XX, os casamentos eram arranjados, não eram por amor, era um contrato que se tornava uma ferramenta de manipulação dos corpos. Com Lina aprendemos que o amor romantizado é algo recente e que precisamos discuti-lo para que não continue no terreno do sagrado, do intocável. Quando pensamos no amor não percebemos por que alguns corpos são mais amados que outros, exatamente porque somos estimulados a isso, a padronizar os corpos que devam ser amados. Quando pensamos em amor, não pensamos em corpos negros, corpos trans, corpos com deficiências, corpos gordos... Amem também as Travestis.

Assim, como podemos falar de amor, se muito também se fala de ausências, de falta de representatividade, de violências, de morte, de dor, palavras e situações que exercem a performance esperada pela sociedade que forçadamente tem destinado nossa condição de gênero e sexualidade. Viviane Vergueiro (2015) incita a refletir que existem pessoas em condições de vulnerabilidade social e que, por elas, nossas leituras críticas da realidade possam tornar-se potências que promovam interações mais empáticas e solidárias com os corpos negados, sem hierarquizar sofrimentos.
Foto: Reprodução/Wallace Domingues
Lina discute o espaço onde ELA pode ser travesti e reinventar o imaginário social; disputa territórios para que, ao ouvirmos a palavra travesti, tenhamos outras imagens, a ideia de uma vida travesti não ligada à violência, à morte, à dor, mas em possibilidades de existências visibilizadas. E Linn é, de fato, a representação de todas as possibilidades de uma existência travesti, atriz, cantora, compositora, amiga, filha, irmã...ela quebra, encaixa, faz e refaz, dá e recebe, mostra mas não oculta sua travestilidade, é sobre quem ELA realmente é, LINN DA QUEBRADA. E, como ela diz: “Não termina aqui. Aqui é parte do caminho”, a porta está aberta, temos, teremos muitas possibilidades, muitas outras portas...
[¹] Pedagogia que procura mostrar a ideia do que seja justiça social na perspectiva de que práticas educativas sejam situadas e determinadas pela realidade social e cultural em que estão inseridas, agindo sobre a produção de subjetividades e problematizando modos de estar e produzir conhecimentos/agenciamentos no campo ou território.
REFERÊNCIAS
BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto? Tradução de Sérgio Tadeu de Niemeyer Limarão e Arnaldo Marques da Cunha. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
MOIRA, Amara. O cis pelo trans. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 25, n. 1, p. 365-373, Abr. 2017.
VERGUEIRO, Viviane. É a natureza quem decide? Reflexões trans sobre gênero, corpo e (ab?)uso de substâncias. In: JESUS, J. G. et al. Transfeminismo: teorias & práticas. 2. ed. Rio de Janeiro: Metanoia, 2015.

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