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Elas, no singular.

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    g-pense
  • 22 de nov. de 2022
  • 2 min de leitura

Autora: Maria Beatriz Vasconcelos de Barros


O que é escrever para mim? O que é escrever? Preciso escrever porque minha escrita é fala. Nego o silêncio, com as palavras. Transito num súbito de ideias e sentimentos que eu nem sabia-ser ou que estavam ali. Talvez não estivessem. Palavras. Como nós temos a capacidade de classificar em coisas de tamanho e formas tão distintas tantas coisas que nos atravessam? Ou melhor, como, na estratificação que do mundo que eu me vivo, eu mulher sou tudo, mas nada ao mesmo tempo? Que é ser mulher? O tempo tem passado com toda a sua urgência. Me sinto na loucura da obra de Carroll, sou a menina-mulher-Alice perdida no país das não-maravilhas, constantemente apressada pelo Coelho Branco que carrega, nervosamente, o relógio, indicando o meu lapso. Mas eu também sou o Coelho Branco. Eu sou o meu próprio bicho-tempo que me aterroriza. Prazos, que invenção! Reclamo deles porque a palavra é o fora, nem que seja por intermédio da folha e da mão ou da caneta... Penso na concepção de deixar a vida passar, até porque d’ela eu não tenho “o que querer. E é a quase verdade. Ora, quem sou eu diante do que tem que acontecer?

Isso não é o que mais me frustra quanto aos prazos. Pouco importa eu, aqui, ainda que algo esteja implicando com o meu eu. Seriam os prazos ao disparador de vivências? Aos seus setenta e nove anos, e sentindo a vida dar os seus sinais de fim, minha avó resolveu partilhar alguns de seus mistérios íntimos, aspectos de sua vida que, quem presenciou em maior parte, leva consigo. Ouvindo seus contos orais, suas estórias de dor, abandono, força, descubro uma nova personagem de mim. É, no olhar cansado e batalhador a quem eu me referencio, que vejo o invisível de mim. É, no conto que ela me conta, que me conto.


Este texto, que era para ser uma coluna, desde que o comecei, não tenho mais tanta certeza dele e de mim. Sei que me encontrei novamente no ciclo emblemático que Conceição Evaristo chama de ‘escrevivência’. Nossas palavras sangram pela tinta e, como estancar as memórias? Sou refém do que escrevo. Às vezes me sinto liberta, como quem estava com as ferramentas – boca e mãos -, fechadas e atadas por cordas. Aí, vem a palavra, que me solta ou me arredam sem pedir licença. Estou envolvida na confusão dos dois. Palavra é vida, não é? É esse o serviço que o ato deliberado – mas nem sempre – de escrever me presta: ver, face a face, cada uma das mulheres que me antecedem, que me abordam quase em uma invasão e, finalmente, através do olho-do-visível, vejo as Mulheres que somos na singular comunhão da solidão. E o relógio do Coelho Branco continua a engrenar, e o prazo a correr atrás dElas.

 
 
 

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