O que o Lollapalooza ensinou a nós, as afeiçoadas pelas palavras?
- g-pense
- 19 de abr. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de abr. de 2022
Maria Rita Pavão
Perdoem-me por tamanho pecado. Na cronologia do progresso, falar sobre o acontecimento passado, mastigado e digerido pela ânsia de informações que nos arrebata, somente pode soar como sacrilégio. Certamente poucos lerão o que escrevo aqui, justamente pela sensação já instaurada de que nada há mais o que se falar sobre o acontecimento que o título desta coluna antecipa. Aos que ficaram, aos que gentilmente me darão uma chance, retribuo com a seguinte justificativa: as reverberações do que nos atravessa possuem um fluxo próprio. Se somente agora me ocorreu falar sobre, devo ao incontrolável movimento de (forma)ção de sentido.
Suponho que todas sabem do que estou falando, da censura tentada contra as artistas que performaram no Lollapalooza Brasil através de determinação judicial – a falha instrumental que posteriormente foi revelada não fez desaparecer as reverberações provocadas por tal tentativa. Ingênua quem acreditou que a arte, logo esta que se alimenta das tentativas de extirpá-la, sucumbiria ao silenciamento; a norma que (ir)racionaliza o que pode ser dito logo percebeu que, nas modulações das expressões artísticas, há a palavra corporalizada no gesto performático da comunhão.
No que diz respeito à abertura que tal acontecimento provoca em contextos que excedem a ele, gostaria de tentar refletir sobre o encontro orgânico com outras formas de palavrear. Em um texto brilhante de Jorge Larrosa, construído a partir de aforismos, retalhos narrativos e poéticos, somos contaminadas pela enfermidade que amarga o sabor das palavras, pela dissociação entre as sonoridades e os sentidos que, em uma cadeia transmissiva, afeta as certezas ontológicas mais bem consolidadas.
As palavras proibitivas lançadas contra as performances artísticas escancaram a podridão que (se) instaurou (n)as formas conhecidas de falar. Representam a manipulação das experiências, pelas vias da construção do Sentido, neste caso através da simulação que procura retirar a violência da palavra para aparentar situá-la na organicidade dos acontecimentos sobre os quais narra. Estratégias similares – assustadoramente similares, diria – foram utilizadas nas ditaduras latino-americanas, pela repetição de palavras como comunismo, subversão, desordem em campos semânticos muito bem pensados.
Entretanto, como antecipei, o vitalismo presente nas formas estéticas da comunhão cria outras possibilidades de palavrear. Não falo mais da palavra como a concebemos, dentro dos moldes linguísticos, mas das corporalidades enquanto recursos narrativos que provocam o deslocamento do semântico. A arte sabe valer-se desses recursos, os explora e os tensiona até os (des)limites do campo perceptivo. Durante os períodos ditatoriais, quando a censura se tornou estratégia de Estado consagrada, as manifestações artísticas serviram de e(s)coamento, vincularam as possibilidades de existência ao Não-Ser – pois quem não pode falar, também não o É – e enfrentaram a esterilidade da palavra com a erótica do corpo criativo.
Quando Glória Groove sobe ao palco montada, trajando um bodysuit que diz o não-dito; quando a banda Fresno se coloca diante da pulsação das imagens questionadoras projetadas ao fundo do palco; quando Emicida constrói o (amar)elo com a juventude, através do corte sonoro que prenuncia a urgência da inscrição eleitoral; quando o público, há dois anos faminto pela comunhão corpórea, se entrega à organicidade do coro não programado, treme e desafia os limites de sua própria existência, é falado mais do que as minhas palavras jamais poderiam falar, contaminadas que estão pela podridão da linguagem. Não se enganem: a maneira que sei de falar, a única que me ensinaram, compartilha da origem mofada que possibilitou a enunciação do que, agora, critico.

Na tentativa de adoecer também, bebo do mesmo copo, anseio contaminar-me, para que somente me reste intolerância pelas palavras.
Ofereço a vocês um gole.
Emicida (Foto: Reprodução Multishow)

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