Quem não reage, rasteja!
- g-pense
- 11 de ago. de 2022
- 3 min de leitura
João Victor Pereira
O programa de uma tarde de sábado de sol e de férias, que marcou a ida de duas famílias a um restaurante no litoral de Portugal, foi interrompido pela atitude racista e xenofóbica de uma senhora que, sem o menor pudor, proferiu ofensas racistas às famílias, uma angolana, e outra brasileira.
É possível ilustrar a cena a partir de inúmeras possibilidades, sobretudo quando se considera os contextos do caso: quem é a racista; quem está ao redor e como as pessoas irão encarar um possível repúdio aos atos; qual será a reação da polícia caso ela seja acionada; dentre tantas outras questões que se costuma levar em consideração, sobretudo quando se é vítima. Isto porque, quando consideramos a premissa de que o racismo é um mal estrutural, não é possível prever qualquer reação por parte de ninguém, sobretudo quando quem se indigna e se revolta é uma pessoa preta, comumente desacreditada, motivo pelo qual não são raros casos como o mencionado a seguir:

Fonte: Portal Terra (por Dindara)
Porém, é a partir do lugar social de uma das mães, uma mulher branca, que não viu outra possibilidade exceto reagir, que gostaria de demarcar esta coluna. A sua postura relembra Cláudio Assis que afirmou que “quem não reage, rasteja!”. Giovanna Ewbank e a sua reação de defesa de seus filhos, Titi e Bless, filmada por alguém que presenciou a reação verbal, tornou-se logo notícia e o vídeo viralizou no Brasil. Já no domingo, o casal Bruno e Giovanna concederam uma entrevista ao Programa Fantástico, da TV Globo, e compartilharam suas dores. Além disso, relataram nesta entrevista que a atriz agrediu fisicamente a senhora racista. É sobre o cuidado que eles tiveram para esclarecer e justificar tal reação que gostaria de me debruçar.
O [triste] episódio inevitavelmente reacenderam alguns debates. O primeiro diz respeito à forma como, supostamente, deve-se agir diante de casos de racismo que acontecem todos os dias, afinal a inércia muitas vezes é uma forma de cumplicidade. No entanto, são as ressonâncias dessa reação, afinal dificilmente haveria a mesma repercussão caso não estivesse envolvida uma mulher branca, aspecto que a própria atriz reconheceu em entrevista, que suscita pensar caso a reação partisse de um dos angolanos que estavam no local e presenciaram as injúrias, como teria sido recebida e interpretada?
A resposta dessa questão é patente: não teria sido recebida e interpretada sob o mesmo respeito que aparentemente foi concedido ao caso envolvendo a atriz. Tal resposta beira a obviedade em razão da constante presença dos traços do privilégio da branquitude em todas as camadas da sociedade.
Como reflexo direto de anos de forte opressão para solidificar a hegemonia branca e enraizar o racismo na sociedade, este privilégio branco também domina significativamente o discurso. Por essa razão, diante da lógica racista dominante, o tom de pele permite atribuir importâncias diferentes a determinados discursos. Aparenta ser importante uma expansão dos ideais antirracistas para que se destaque que a luta envolve todos e ela deve ser travada tendo consciência de todas as suas especificidades.
São algumas breves questões que podem incentivar as leitoras e os leitores para que cogitem outras formas de se engajar nas lutas antirracista. Por mais que não deseje, aqui, formular conclusões, existe uma que é inevitável e que Giovanna Ewbank demonstra, sobretudo em relação ao racismo no Brasil: quem não reage, rasteja!

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