Uma carta sem remetente ou sobre celebrar o mês do orgulho LGBTQIAP+ no Brasil
- g-pense
- 28 de jun. de 2022
- 3 min de leitura
Ciro H. S. Silva
Confesso que eu nunca contei quantas colheres de achocolatado coloco em minha caneca grande e branca, que foi dada a mim por uma tia avó, pelo natal de algum tempo atrás. Quanto ao leite, o coloco por último, mas sei que termina sempre ficando um pouco de pó no fundo, mas essa é uma receita que respeito, muito!! Talvez, você leitor(a), esteja pensando: que diabos esse gay deve estar querendo, ao ensinar a fazer um copo de leite com achocolatado, em pleno mês do orgulho LGBTQIAP+? Simples, é porque cansamos de falar da ignorância formada pelo (cis)tema conservador no qual vivemos, que sempre resulta em uma série de violências e invisibilidades, por mais que as questionemos. Queremos falar sobre nada, fingir que nada de ruim existe em nossas vidas, assim como todos vocês que nos celebram com a bandeira do arco-íris em suas redes sociais fazem. Eu quero falar de amor ou de uma simples receita, mas não parece ser possível e é por isso que desabafo.
Estamos exaustos de sermos os(as) bobos(as) da corte, nos deixem em paz, aprendam que estão errados e que estamos só tentando ser quem nós somos. Não descontem suas frustrações em nossas existências, não nascemos de chocadeiras, temos família e queremos constituir uma ainda maior, temos amores, desejos… desejo de ter uma vida digna e de encontrar ouvidos que ouçam, mãos que afaguem e bocas que riam e conversem. Tratar nossas existências como piada e rir de nossas vidas, zombar do nosso sopro de vida, é fazer dela algo patético e risível, que não se deve levar a sério, e isso desemboca em um efeito cascata que não nos levam a sério em lugar algum, nem nos nossos relacionamentos, nem em dignidade de receber amor, carinho ou em uma boa relação de amizade. O que nos resta? Nada! Somos a piada e a chacota, percebem aonde tudo isso leva?
Perdemos a educação e ganhamos a morte e, nem ali no último suspiro, temos respeito, ainda somos motivo de deboche. CHEGA! Há tanta informação à volta, na palma das mãos, que já não dá mais e não queremos mais ter que explicar tudo a todo momento. Vocês sabem de tudo! Vocês elegem, como em um cardápio a la carte, o que querem e o que não querem para nos atacar, apagam nossas existência e continuam a nos tratar como piadas imbecis e seres animados, na verdade, inanimados e muito, muito animados. Sangramos da mesma maneira, mas morremos de outra maneira sempre, pagamos com o mesmo dinheiro, mas só recebemos migalhas, pagamos impostos por tudo, mas nos é negado trabalho, a gente vive entre vocês, mas nós não somos como vocês, não somos tratados como vocês, aliás nós não somos vocês e não queremos nada além de respeito e escuta.
Chega de rir da nossa cara como se sempre fossemos uma existência boba, imbecil e que merece ser sempre motivo de risada. Somos gente, somos humanos, não aguentamos mais repetir o óbvio, e ter que justificar nosso próprio ser. Minha impressão é de que somos esfaqueados diariamente e, ao invés de sermos ajudados e curados, somos cobrados e questionados do porquê que estamos (supostamente) sangrando nas ruas e sujando as calçadas, impedindo a passagem de todos os outros que não foram esfaqueados e, até mesmo, de quem nos feriu.

Queremos existir plenamente, então não me cobre por ter anulada a minha própria existência; queremos rir das piadas que não ofendam ninguém e não queremos ser o motivo da risada que nos ofende e magoa, sempre. Eu quero rir de felicidade tal qual vocês! Um Feliz dia do Orgulho LGBTQIA+ a todes!
REFERÊNCIAS
CALDAS, Ana Lúcia. Mercado de trabalho ainda discrimina pessoas trans. Radioagencianacional, Brasília, 30 de jan. 2017.Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2017-01/mercado-de-trabalho-ainda-discrimina-pessoas>. Acesso em: 27 de jun. 2017.
LIVRO: Acontece Arte e Política LGBTI+; ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais); ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos). Mortes e violências contra LGBTI+ no Brasil: Dossiê 2021.
Florianópolis, SC: 2022. Disponível em: <https://observatoriomorteseviolenciaslgbtibrasil.org/wp-content/uploads/2022/05/Dossie-de-Mortes-e-Violencias-Contra-LGBTI-no-Brasil-2021-ACONTECE-ANTRA-ABGLT-1.pdf>. Acesso em: 27 de jun. 2017.

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